No meio de tantos barulhos e zumbidos incomodativos vindos de todos os lados que nestes últimos tempos ouvimos, difícil será encontrar um momento de silêncio onde não se ouçam estes “chiares” incomodativos que às vezes tolhem os sentidos! Ou é a televisão, ou é a rádio, ou são os jornais, ou até algumas pessoas que se julgam feitas de outra matéria diferente da dos comuns mortais e, por conseguinte, detentoras das verdades de facto e até das de fé (…) parece que vivemos num tempo de fundamentalismos em que se esqueceu a essência humana, onde a palavra direito e dever trocaram de lugar e onde até o maior mandamento que da fé aprendemos parece estar de braços cruzados mas, no entanto, tal como acontece a quem quer que entre na Capela do Monte Pedral, encontrará (sempre) um Jesus silencioso e, de braços abertos, pregado na cruz e se olharmos para o altar do lado esquerdo, encontramos o mesmo Jesus - agora ressuscitado - mas, da mesma forma, em silêncio e de braços abertos…
Na aldeia dos meus avós e dos meus pais vivia-se exclusivamente da agricultura. Quando era pequenito, as férias grandes eram
passadas naquela paisagem tranquila entre o cheiro a feno, o apanhar grilos e o andar descalço em cima dos terrões que o arado deixava para trás durante a arranca das batatas… ao meio dia parava-se de trabalhar para comer - num prato grande de onde todos comiam - as batatas cozidas com rojões, regadas com pingue que eram trazidas num cabaz adornado com uma toalha de linho branquinha e o tradicional pipinho… ao entardecer, o silencio da aldeia era entrecortado por um chiar quase constante e incomodativo… lembro-me que muitas vezes ia para a janela da sala dos meus avós e punha-me a ver ao longe os carros de bois que iam e vinham numa constante azáfama. Um dia perguntei ao meu avô qual a razão dos carros de bois chiarem tanto e ainda hoje me lembro da explicação simples mas sábia que me deu: dizia ele que os carros de bois só chiavam quando iam vazios porque quando iam carregados (de coisas boas) como os sacos de batatas, não chiavam!
As palavras simples do meu avô poderão ser a resposta para muitos desses “chiares” que teimam em interromper a paz do nosso silêncio pois ainda há (e haverá) momentos e pessoas no mundo assim: quanto mais vazias são ou andam, mais chiam!
Durante o tempo de Natal que vamos viver – com mais ou com menos abundância, em família ou no íntimo do nosso coração – saibamos compreender a mensagem que emana do presépio onde a figura central continua a ser esse mesmo Jesus – agora menino – que permanece de braços abertos, em
silêncio e que há mais de dois mil anos nos anda a tentar dizer que a solução para todos nossos problemas é, simplesmente, silêncio e amor! Basta apenas que consigamos abstrair-nos das chiadeiras do dia a dia!
Boas festas para todos.
Paulo / Dezembro de 2011