Sexta-feira, 17 de Agosto de 2012

PRESENTES DE VIDA

Quando eu era pequenino, lembro-me que fui muitas vezes à loja do Senhor Sereno na Rua da Aliança comprar livrinhos da “coleção formiguinha” editados pela “Majora” que na altura custavam, se bem me lembro, um escudo e cinquenta centavos… para quem não sabe, estes livrinhos – eram muito pequeninos mesmo – continham historinhas com lições de vida ilustradas toscamente a preto e branco com títulos sugestivos como “o príncipe com orelhas de burro”, “as caras trocadas”, “o gigante sôfrego e o anão comedido” e tantos outros… nesse tempo não havia internet nem livros ou contadores de historinhas para crianças e, por isso, julgo que provavelmente terão sido esses pequenos (e precoces) momentos de leitura que despertaram em mim o gosto pela escrita de parábolas e de historinhas – ouvidas ou inventadas – que hoje a mim (e a vós) fazem “parar para pensar”! Quando já era rapazote, lembro-me que guardava (e guardo ainda) alguns exemplares dessa coleção que sobreviveram ao tempo e às mudanças de casa. Ainda nesse tempo, fui ouvindo e guardando outras histórias que em quase todos os Natais e Páscoas me eram contadas na aldeia pelos meus avós e, quando me tornei homem, o meu coração foi cativado por outro contador de histórias e de parábolas que, aos poucos, fui conhecendo melhor e aprendi a amar: Jesus de Nazaré! Há pouco tempo atrás, o Adriano brindou-me com a relíquia da coleção completa (cerca de 60 historinhas) desses livrinhos que adquiriu num leilão de antiguidades e que hoje guardo religiosamente numa vitrina. Este salutar hábito de ouvir os mais velhos em serões de amena conversa onde se trocam experiencias e histórias de vida foi-se perdendo no tempo e, nos dias de hoje, é substituído por idas à internet para cuscar as histórias e os comentários no mural do “Feissebuque” deste ou daquele ou por outros momentos de surdos monólogos virtuais que se perdem como palavras ao vento. Gnôthi Seautóm é uma expressão da antiguidade Grega que quer dizer conhece-te a ti mesmo e ninguém se poderá conhecer bem a si mesmo se não aprender a conhecer o que o rodeia e (também) os outros…

 

Havia um casal de velhinhos muito pobres e sem filhos que habitavam uma casa sobre um monte… para além das habituais tarefas diárias do campo, todas as noites eles sentavam-se no alpendre da casa… ela, na sua farta e bela cabeleira, fiava o algodão com a sua roca e ele, sentado no seu cadeirão

de baloiço, saboreava os restos de tabaco no seu velho cachimbo – eram estas as maiores riquezas que possuíam: a farta cabeleira invejada pelas outras mulheres da aldeia e o velho cachimbo onde ia faltando o tabaco pois a venda de fruta na aldeia não dava para tudo! Estando perto a data das bodas de ouro do seu casamento e como as circunstâncias económicas nunca tinham permitido oferecer presentes um ao outro, em segredo pensavam em como fazer essa surpresa. Depois de tanto pensar em segredo, ela sentiu um calafrio com a ideia, mas o sacrifício justificava-se para a pessoa que mais amava: ia cortar e vender a sua farta e bela cabeleira e com o dinheiro comprar tabaco para que o seu marido pudesse saborear de novo e em pleno o cachimbo… assim pensou e assim fez! Ele, por sua vez, também dava voltas na cabeça sobre como e o que fazer e, dias depois numa das visitas à aldeia, resolveu deixar de fumar, vendeu o seu cachimbo e com o dinheiro obtido comprou e mandou embrulhar um presente para a sua esposa. Ao chegar a casa, quase à noitinha, recebeu carinhosamente da esposa o presente que ela tinha embrulhado e entregou-lhe afetuosamente o embrulhinho que trazia debaixo do braço: um lindo pente dourado!

 

Estimados amigos e amigas, para bom entendedor meia palavra basta e julgo que a historinha que há tempos ouvi e hoje partilho convosco ilustra bem o tempo de superficialidade que hoje vivemos a todos os níveis! Almejamos amar e ser amados, mas por medos de compromissos preferimos nadar apenas à tona ou boiar nessa água de vida em vez de mergulhar nela com todos os nossos sentidos – mesmo que não saibamos nadar! Reclamamos direitos e apontamos o dedo acusador, esquecendo-nos de que ao apontar um, ficam três dedos apontados a nós mesmos! Meditamos na nossa fé e no silêncio da oração dizemo-nos infelizes porque Deus nunca atendeu os nossos pedidos, quando muitas vezes fomos nós que apenas balbuciamos o Seu nome ou deixamos entupir os nossos ouvidos com palavras do maligno (como dizia a minha avó) nas suas diversas formas e meios! Desejamos que nos compreendam, mas não sabemos compreender os outros e nos nossos orgulhos (às vezes feridos) não somos humildes o suficiente para dizer “perdoa-me” ou “bem haja” a quem está ao nosso lado! Queremos ter ou ser mas muitas vezes esquecemo-nos de que é necessário que antecipadamente tenha-mos dado ou sido sem protagonismos ou estrelatos! Finalmente deseja-mos ser ouvidos na nossa velhice mas não ouvimos hoje os velhos e carentes que abundam ao nosso lado porque não temos tempo ou as conversas são sempre as mesmas e perdemos uma oportunidade – ainda que cíclica e repetitiva – de enriquecer a nossa existência com saberes que nem a internet ou o “Feissebuque” na sua universalidade nos podem dar! No regresso de um tempo de férias, desejo que saibamos ser presentes para os outros sem necessidade de vender cachimbos ou cabelos pois o melhor presente não se compra nem se vende… dá-se e é um bolo feito de amor, justiça, fé, fraternidade, compreensão, partilha e caridade.

 

Paulo do Monte Pedral / Agosto de 2012

ppp do Paulo às 01:46
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1 comentário:
De ALEXANDRE SOUSA a 8 de Setembro de 2012 às 02:38
Caro Amigo Paulo Santos

Parabéns pelo “Presentes de Vida”

Um abraço

Alexandre Sousa

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